Pioneiros do jornalismo em Angola

Em 18 de Setembro de 1867 nasceu o jornal semanário O Commercio de Loanda, também com tipografia própria. Urbano de Castro e seu companheiro Alfredo Mântua foram atacados violentamente neste jornal, propriedade de José Mendes Affonso, presidente do Tribunal da Relação de Luanda e que, por força do seu cargo oficial não podia dar a cara. O magistrado era apontado pelos dois polemistas como venal e corrupto. Em 1872, surgiu mais um anuário, o Almanach Popular só saiu o primeiro número. Em 1873, nasceu o semanário Cruzeiro do Sul. Este jornal, onde pontificava o padre Castanheira Neves e o inevitável Urbano de Castro, já teve como fundadores jornalistas africanos. Em 1882, nasceu o semanário A União Africo-Portuguesa, ainda sob o génio e a influência de Urbano de Castro. 

Quem era este jornalista? Foi escrivão de Direito e advogado. Mas destacou-se como jornalista, panfletário e polemista. A sua pena era letal. Chegou a ser vereador da Câmara de Luanda, pese embora as suas opções políticas libertárias. Traduziu textos do alemão e do inglês para português. Os comerciantes do Dondo, detentores da companhia de vapores do Kwanza, ofereceram-lhe uma pena de ouro cravejada de brilhantes, por relevantes serviços prestados à causa do comércio. Os grandes jornalistas, escritores e políticos Pinheiro Chagas e Oliveira Martins renderam-lhe as suas homenagens. Nada mais se pode dizer de um jornalista brilhante, pioneiro da Imprensa Livre em Angola.

Alfredo Troni foi um excelente seguidor dos combates de Urbano de Castro e Alfredo Mântua, os dois pioneiros da Imprensa Livre. Advogado, jornalista e cronista brilhante, veio de Coimbra para Luanda servir o Poder Judicial. Mas em breve se rebelou contra o poder personificado no governador e sua corte. Alfredo Troni, em 7 de Julho de 1878, fundou o Jornal de Loanda, com tipografia própria e sede na Rua Diogo Cão. O governador-geral foi vítima da sua pena brilhante. E quando Troni, pelos seus afazeres de advogado, teve de se ausentar da trincheira do jornal, contratou um jornalista de primeira água, Ladislau Batalha, na época um dos mais brilhantes arautos do socialismo. Batalha, que tinha um espírito aventureiro, estava em S. Tomé a tirar notas para um romance quando recebeu o convite de Alfredo Troni. Ele embarcou de imediato na célebre barca a vapor Flor de Loanda e desembarcou em Angola mais morto que vivo. Troni alojou-o numa pensão de luxo e no dia seguinte Ladislau Batalha começou a zurzir no governador e em todos os que se opunham às ideias socialistas de Alfredo Troni ou aos seus numerosos negócios. Um dia Ladislau Batalha desapareceu. Perdeu-se de amores por uma senhora negra e foi com ela algures para o Norte de Angola. Apareceu anos mais tarde em Lisboa e escreveu em livro as suas memórias e aventuras africanas. Um livro delicioso!

Alfredo Troni perdeu o seu Jornal de Loanda mas não cruzou os braços. Em 1888, da sua tipografia privada saía o celebérrimo jornal Mukuarimi (o maldizente?). As oficinas gráficas do Bungo passaram a chamar-se Typographia do Mukuarimi. O jornal seguiu o seu caminho sem Ladislau Batalha e Troni teve que puxar das pistolas de ouro e mostrar quanto valia como jornalista e cronista. Esta série é a que melhor revela o talento e a arte daquele que foi um dos maiores cronistas de sempre da Imprensa Angolana e um dos mais notáveis de língua portuguesa.

No ano de 1872, a Maçonaria instalou-se em Angola, primeiro em Luanda e logo a seguir na vila da Catumbela. Pouco tempo depois esta loja maçónica transferiu-se para Benguela onde fez obra de grande vulto. A Maçonaria também teve os seus jornais de combate. O mais importante de todos foi A Defeza de Angola (1903), um bi-semanário, servido por jornalistas profissionais que se deslocaram de Portugal para Luanda. O jornal tinha tipografia própria de grande qualidade, comprada por subscrição pública. O comerciante Farinha Leitão foi um dos que mais se destacou na criação de condições para o apetrechamento gráfico do jornal. 

A lista dos periódicos

Em Luanda: Boletim do Governo Geral da Província de Angola (1845), Almanak Statistico da Província d’Angola e suas Dependências (1852), A Aurora (1856), A Civilização da África Portuguesa (1866), O Commercio de Loanda (1867), O Mercantil (1870), Almanach Popular (1872), O Cruzeiro do Sul (1873), O Meteoro (1873), Correspondência de Angola (1875), Jornal de Loanda (1878), Noticiário de Angola (1880), Boletim da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Geographico-africanos de Loanda (1881), Gazeta de Angola (1881), O Echo de Angola (1881), A Verdade (1882), O Futuro d’Angola (1882), A União Africo-Portugueza (1882), O Ultramar (1882), O Pharol do Povo (1883), O Raio (1884), O Bisnagas (1884), O Arauto dos Concelhos (1886), A Tesourinha (1886), O Serão (1886), O Rei Guilherme (1886), O Progresso d’Angola (1887), O Exército Ultramarino (1887), O Imparcial (1888), O Foguete (1888), Mukuarimi (1888), Arauto Africano (1889), Nuen’exi (1889), O Desastre (1889), Correio de Loanda (1890), O Chicote (1890), O Polícia Africano (1890), Os Concelhos de Leste (1891), Notícias de Angola (1891), Commercio d’Angola, 1892, A Província (1893), O Imparcial (1894), o Independente (1894), Bofetadas (1894), Propaganda Colonial (1896), O Santelmo (1896), Revista de Loanda (1896), Propaganda Angolense (1897), A Folha de Loanda (1899).

Em Benguela: O Progresso (1870) e A Semana (1893).

Em Moçâmedes (Namibe): Jornal de Mossamedes (1881), Almanach de Mossamedes (1884), O Sul d’Angola (1892), A Tesoura (1892), A Tesourinha (1892) e A Bofetada (1893).

Na Catumbela: A Ventosa (1886).

No Ambriz: A Africana (1893).

Angola, no século XIX, tinha 59 jornais. Em Luanda foram editados 49, seis em Moçâmedes (Namibe), dois em Benguela e um no Ambriz.

Jornalistas africanos

Em todos os jornais da época existiam jornalistas africanos, até porque os filhos da burguesia negra caprichavam no domínio da língua portuguesa e quase todos tinham estudos primários e secundários quando não universitários. Entre os jornalistas africanos negros do século XIX merecem destaque alguns nomes, porque eles foram os melhores do seu tempo, os primeiros entre os seus pares, fossem africanos ou de origem europeia. Foram eles João da Ressurreição Arantes Braga, cuja família deu origem ao famoso muceque Braga, lugar de infância de Luandino Vieira e que ficava onde é hoje o bairro do Café e tinha como fronteira a Norte o local onde é hoje a igreja Sagrada Família; José de Fontes Pereira, Pedro da Paixão Franco, Sant’Anna Palma e Augusto Bastos.

O jornal Echo de Angola (12 Novembro de 1881) foi o primeiro jornal exclusivamente propriedade de angolanos e cuja Redacção era composta também por jornalistas africanos negros. Entre os seus redactores estava José de Fontes Pereira, justamente considerado um mestre do jornalismo luandense do último quartel do século XIX. Quando faleceu, era o decano dos jornalistas angolanos e Sant’Anna Palma, outro jornalista negro, no seu elogio fúnebre, considerou-o o melhor entre os melhores. José de Fontes Pereira recusou o clima panfletário da época, as polémicas e fez um jornalismo inteligente e sóbrio. Colaborou em várias publicações de Urbano de Castro, mas deu sempre uma nota de sobriedade, rigor e grande profissionalismo. Também foi um dos mais valiosos colaboradores do jornal O Mercantil, considerado unanimemente como o melhor jornal da fase da Imprensa Livre.

Como advogado defendeu os direitos fundamentais de africanos e europeus. Desencadeou na Imprensa campanhas contra o alcoolismo. Foi um defensor fervoroso dos bons costumes e da cultura. Quando faleceu em Luanda, a 3 de Maio de 1891 (foi sepultado a 4 de Maio no Cemitério do Alto das Cruzes) o jornal O Desastre, concorrente e adversário do Echo de Angola dedicou um suplemento de duas páginas (num total de quatro páginas que tinha o jornal) a José de Fontes Pereira. Num artigo assinado pelo jornalista negro Mamede de Sant’Anna e Palma, director e proprietário do jornal, o decano dos jornalistas angolanos foi considerado um “verdadeiro mestre”.

Uma notícia da época dizia que “o enterro teve lugar no dia 4, às cinco horas da tarde tendo saído o préstito da Rua D. Miguel de Mello (casas do capitão Pedro de Sousa) para a igreja do Carmo, onde foi encomendado o cadáver”.

Arantes Braga, um angolano também negro, é fundador do jornal Pharol do Povo, subtítulo Folha Republicana. Foi o primeiro jornal de Angola que em plena monarquia, numa fase de tremenda repressão, se declarou defensor dos ideais republicanos. É considerado o mais arguto jornalista africano na produção de jornalismo político.

Pedro da Paixão Franco foi o mais mediático de todos os jornalistas africanos negros do século XIX. Além de jornalista, foi escritor de mérito, deixando a obra em dois volumes, História de uma Traição. Colaborou em praticamente todos os grandes jornais portugueses da época, assinando artigos despachados de Luanda, muito apreciados pelo público leitor. Além de jornalista e escritor, Pedro da Paixão Franco foi funcionário dos Caminhos-de-Ferro de Malanje. A sua certidão de óbito diz que morreu de pneumonia. Mas Pedro da Paixão Franco terá sido envenenado por uma bela senhora africana que o seduziu e chamou para uma armadilha. Antes de morrer ainda teve tempo de revelar com quem esteve e o que comeu e bebeu em casa dessa senhora.

O livro História de uma Traição era muito crítico de algumas famílias tradicionais negras. Mas Pedro Paixão Franco era também oriundo de famílias da burguesia negra. Sua mãe era Maria Francisca de Assis e seu pai Pedro da Paixão Franco. Ambos pertenciam à alta burguesia da época. Ao escrever o livro assinou a sua sentença de morte. A obra, em dois volumes, foi despachada do Porto (onde foi composta e impressa) para Luanda. Quando o caixote com os volumes estava na Alfândega, desapareceu e ao que se sabe, foi queimado. Sobraram alguns exemplares que Pedro da Paixão Franco recebera na mala do correio. Nos anos 50 do século XX o povo ainda cantava canções em kimbundu de homenagem a Pedro da Paixão Franco. 

Este jornalista é fundador do semanário Angolense (1907).

A história do jornalismo Angolano do século XIX encerra com duas figuras ímpares: Augusto Bastos, de Benguela e Júlio Lobato, um angolano de origem europeia. Augusto Bastos era filho de uma negra e de um comerciante português. Os seus dotes de inteligência levaram o pai a enviá-lo para Portugal, onde fez estudos secundários. Quando se matriculou na Faculdade de Medicina de Lisboa o pai faleceu e ele ficou sem recursos financeiros para continuar em Portugal. Nos últimos anos do século XIX já era um dos jovens talentos do jornalismo angolano.

Júlio Lobato era igualmente um jovem e talentoso jornalista que começou a sua carreira profissional na Imprensa Livre do último quartel do século XIX. Explodiu nos primeiros anos do século XX e em 1908 fundou o jornal A Voz de Angola que tinha como legenda: Libertando pela Paz; Igualando pela Justiça; Progredindo pela Autonomia. Este jornal tinha um contrato com a agência Reuter e publicava todas as semanas noticiário de Londres. Pela primeira vez um jornal de Angola assumia em subtítulo que era defensor da autonomia de Angola. A repressão caiu sobre Lobato e o seu jornal, mas a semente ficou, germinou e os frutos estão à vista no Jornal de Angola e no Jornal de Desportos.

(Texto elaborado por Artur Queiroz para os jornalistas do Jornal de Desportos e Jornal de Angola que participaram na formação em técnicas de edição). Fonte: Internet